A ousadia do pertencimento

A ousadia do pertencimento

Era como um descompasso. Uma certeza enorme que tudo estaria bem, até me deparar com seu rastro ameaçador. A disritmia tentando manter prudência ao escolher o deleite certo, contudo, completamente vulnerável às suas pequenas aparições de acolhimento. O mínimo de descuido, e você me tomaria com esse ar de mistério onde nenhuma alma distraída ousaria responder ao primeiro sorriso seu, só pela coragem que você tem quando posiciona o olhar para minha confusão. Já percebi essa sua mania de se esconder no silêncio e reaparecer entre meus passos feito um bilhete colocado embaixo da porta em hora desavisada.

Não me pergunte quem é o culpado porque não vale a pena o desgaste. E também porque depois de mostrar minhas singelas alegrias não consigo entender porque isso acontece mais do que eu, inocentemente, poderia supor. As coisas estavam indo bem. Não sei o que houve no meio do caminho entre a sua morada e a minha. Assisti muitas vezes essa teimosia que parte não sei de onde, mas acho uma grande injustiça quando não podemos estabelecer determinadas regras ao nosso mundo bem antes do primeiro rastro surgir. Às vezes a incompletude basta, outras não.

Talvez eu não faça ideia de como seguir, mas não preciso sentir que estou em um tribunal a cada aparição sua. 

Lutamos, quem sabe, tardiamente. Dobramos a primeira esquina para fugir do escuro anterior e supervalorizamos o próximo medo. Somos ótimos em dramaturgia. Insisto em redirecionar meus pensamentos para ter o mínimo de coerência, e junto a isso, sei que preciso engarrafar um pouco de poeira estelar para quando o seu mundo for pesado demais em meus ombros. Talvez eu não faça ideia de como seguir, mas não preciso sentir que estou em um tribunal a cada aparição sua.

Trocando em miúdos, penso que a estrada é triste, mas acho que mais triste ainda é perder-se de si e fingir que não somos responsáveis pelo escravismo que fazemos de nossas ideias.

Não é absoluta, mas a certeza que se constrói acontece aos tantinhos, doses homeopáticas. Talvez seja uma questão de apenas aprender a não ser alvo dessa maluquice toda que a gente acostumou guardar. Nuvens carregadas que chamamos de abrigo porque parecerá mais elegante se acaso alguém descobrir o quanto é difícil vivermos em nós. Um verdadeiro conta-gotas que te guia para o que te mantém de pé ou de olhos vendados à sete palmos do chão. Trocando em miúdos, penso que a estrada é triste, mas acho que mais triste ainda é perder-se de si e fingir que não somos responsáveis pelo escravismo que fazemos de nossas ideias. O seu mundo precisa que você nunca se abandone e as coisas não precisam ser evidentes, elas só precisam ser boas.

Mantenho-me. Careço de miudezas e me faço grande.

Iwska Isadora