Adultos são vagos demais

Adultos são vagos demais

Queria voltar a ser criança, porque ser adulto é vago demais.

Só de pensar que a gente espera a infância pra ser adolescente e a adolescência para ser adulto, me faz pensar na burrada que a gente comete quando olha pro céu e faz um pedido tão firmemente pra uma estrela cadente, que quando a gente cresce ela parece ser só mais um pedaço de algo caindo do céu (para alguns). Acabamos crescendo tanto, que enrijecemos músculos e coração, nos tornamos duros e árduos, desacreditando de tudo. O “bom dia” parece vir disfarçado de cantada, uma ligação parece prova de amor, abraços parecem entrar em extinção e o sorriso sempre vem borrado de alguma coisa. 

Às vezes, parece que estamos em um metrô lotado por sentimentos vazios e pessoas que passam umas pelas outras despercebidas, não se olham, nem se tocam e, consequentemente, não se sentem. 

Trocamos o toque da pele pelo toque na tela, as ligações por SMS, as conversas em mesa de bar por grupos no whatsapp, as fotografias emolduradas como recordação por fotos digitais nunca impressas – e geralmente perdidas por falta de backup -; tudo ficou tão confuso que mal sei se a gente ainda sabe ser essência nesse vasto mundo rodeado de aparências. Às vezes, parece que estamos em um metrô lotado por sentimentos vazios e pessoas que passam umas pelas outras despercebidas, não se olham, nem se tocam e, consequentemente, não se sentem. Com toda a modernização, mudamos a rota dos olhares para uma janela vaga, repleta de notificação.

Sempre que fecho os olhos, acabo voltando pro tempo em que meu dia valia a pena só de assistir meu desenho preferido, correr na rua com meus amigos e receber o abraço da minha mãe. Se eu pudesse, jamais teria feito pedido para aquela estrela cadente, ser criança me preenchia. Adultos são chatos demais.

Marianne Galvão