O Escândalo da Ausência em “Eu Vos Saúdo Maria”

O Escândalo da Ausência em “Eu Vos Saúdo Maria”

A religiosidade não é clara em “Eu Vos Saúdo Maria”, de Jean-Luc Godard. Talvez seja este o estopim ao ódio dos religiosos: o problema não está em ver demais, mas justamente em encontrar, na gramática de Godard, a ausência.

(...) em “Eu Vos Saúdo Maria” há o tabu, o mistério frio sobre a virgindade da protagonista.

As imagens não precisam traduzir tudo, explicar Maria, seu mito, sua dor – ou, em palavras exatas, suas contradições e problemas. Aos desavisados, é um filme de Godard.

Nesse caso, traduz-se pelo encontro de imagens, pelas possíveis – variadas, infinitas talvez – interpretações à história de Maria e José, à história bíblica. Ao recontá-la, ou decidir transpô-la para outro tempo, Godard já se coloca contra o discurso comum.

Demole o mito e, de quebra, não deixa espaço para uma interpretação definitiva. A Maria de Myriem Roussel é uma moça fria que questiona o conflito entre o corpo e o espírito, entre a matéria e o sentimento. Algumas sequências mostram seu desespero, à cama, quando se debate – entre a ação demoníaca e o desejo reprimido.

Godard lança essa história à modernidade, feita de sua linguagem nem sempre acessível, com uma Maria comum e sexualmente atraente.

A falta de explicações contribui à arbitrariedade da imagem, também a seu mistério. Em comparação com outros filmes anteriores de Godard, “Eu Vos Saúdo Maria” é mais frio – o que parece ser central em sua crítica à religião.

Se em “Paixão” havia a entrega à arte de forma incondicional, o renuncio à “história contada”, e, em “Carmen de Godard”, a força da atração dos corpos, o amor louco, em “Eu Vos Saúdo Maria” há o tabu, o mistério frio sobre a virgindade da protagonista.

Tabu que ainda incomoda, e contra o qual o próprio Godard coloca-se. Para o diretor, gravidez sem sexo não faz sentido. Mas, na matéria cinematográfica, esse mistério ganha outra forma e induz José (Thierry Rode) aos questionamentos esperados.

A suposta irrealidade religiosa confronta a normalidade de Maria, filha do dono de um posto de gasolina, jogadora de basquete, estudante que sabe mais sobre arte que o taxista José, com óculos quadriculados, em ligação com seu tempo.

Somam-se a essas questões imagens da natureza. O mesmo já havia sido visto em “Carmen”, como se Godard sempre entregasse o oposto à linguagem: contra o mito que já carrega sua história, seu relevo religioso, o diretor entrega a natureza bruta.

Em paralelo, um professor fala sobre questões científicas envolvendo o surgimento da vida na Terra. Outro ponto que deve incomodar os fundamentalistas: para Godard, a história dessa nova Maria não exclui o questionamento científico. E é interessante notar como o professor mostra que a vida talvez não seja fruto do acaso.

Não se trata de um filme para atacar mitos religiosos. O golpe de Godard é maior: subverte-os, lança essa história à modernidade, feita de sua linguagem nem sempre acessível, com uma Maria comum e sexualmente atraente.

30 anos depois

Na época de seu lançamento, em 1985, “Eu Vos Saúdo Maria” foi proibido no Brasil. A censura ainda era presente no período da redemocratização, sob o governo Sarney. Sua exibição foi autorizada apenas em 1989, sendo lançado direto no mercado de vídeo.

Rafael Amaral