O Capitão América e as Relações Internacionais

O Capitão América e as Relações Internacionais

O exercício diário de um Analista de Relações Internacionais é conectar desde fatos cotidianos, notícias e até grandes acontecimentos, com as várias perspectivas teóricas da área e assim desenvolver uma análise cabível. Com um tempo essa tarefa se torna automática e divertida, além de interessante, e foi assim que o filme Capitão América – O Soldado Invernal (2014, direção de Joe e Anthony Russo, com Chris Evans, Scarlett Johansson, Samuel L. Jackson, Robert Redford, Anthony Mackie) foi vítima do olhar internacionalista.

Criado em 1946, no pós Segunda Guerra Mundial, o Capitão América tem sua histórica intrinsecamente ligada à política externa da sua pátria, os Estados Unidos. Naquela época, seus primeiros cartoons mostravam a luta contra o nazismo, o inimigo Adolf Hitler sendo derrotado e seu escudo representando a liberdade, tudo sempre nas cores da bandeira americana. Agora, devidamente realocado na era da globalização, e em 3D, o herói enfrenta inimigos mais atuais. Tais como conspirações políticas, armas de destruição em massa, entre outras maravilhas dos nossos dias.

Nas primeiras cenas do filme é apresentado um Plano de Segurança no qual a população abdica da sua própria liberdade em nome da sua segurança (igualmente aos “selvagens” do estado de natureza de Hobbes), assim o Estado pode investir em armamento, tecnologia bélica e militarização de seus setores. Daí surge alguns questionamentos: Qual a garantia de estar realmente seguro? Em quem posso confiar? Se armar é a solução? O próprio herói sofre uma crise de valores ao se incomodar com tantos segredos dentro da agência para qual trabalha, a S.H.I.E.L.D. Usando a expressão do Capitão América, esse processo de militarização é freedom from fear, entendimento real que está dentro do amplo conceito Segurança Humana, lançado pelo Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas (PNUD) em 1994, com enfoque na proteção de ameaças como fome, doenças, também guerras e genocídio.

Por falar em Nações Unidas, impossível não referenciá-la com as reuniões do Conselho de Segurança Global, que no filme é o órgão que controla a S.H.I.E.L.D., onde China, Índia, Rússia e Europa tem assentos permanentes, mas são presididos por um estadounidense, o Mr. Pierce. Este talvez mereça o status de verdadeiro vilão, não a confusa máquina de guerra que é o Soldado Invernal. Além de arquitetar as conspirações, o diretor do Conselho segue perfeitamente o Realismo das Relações Internacionais: admite a diplomacia como recurso de poder, escuta as vozes dos outros Estados, mas na hora de tomar uma importante decisão segue o auto-interesse. 

No caso do filme, a grande decisão é o lançamento de helicarriers, que eliminarão milhões de vidas consideradas futuras ameaças, previamente monitoradas. O que faz da sequência do Capitão América uma obra extremamente atual, dado os escândalos de espionagem nos EUA. Considerando o “século XXI um livro digital”, o filme nos provoca a pensar sobre o quanto expomos e somos expostos nas várias redes sociais, e o que os Estados e até hackers em geral podem fazer com essas informações. Também vale ressaltar que essa não deve ser uma preocupação compartilhada só pelos americanos, o Brasil, por exemplo, é o oitavo país a sofrer ataques cibernéticos. 

Mas nem só de referências a política internacional o filme é feito. Vai agradar aos fãs dos quadrinhos, inclusive, pela adição da personagem Sharon Carter, vivida pela Emily VanCamp (com as mesmas caras e bocas da sua personagem Emily Thorne/Amanda Clarke na série Revenge) e por mostrar a evolução do personagem do Agent Rogers. Além das cenas de ação que a Marvel tão bem produz e clássicas cenas extras.