Assista a um bom filme duas vezes

Assista a um bom filme duas vezes

O teatro é sempre um caso único: o espetáculo de determinado dia, hora, local, nunca será igual a outro – mesmo quando encenado no mesmo dia, hora e local.

Alguns acreditam que cinema é diferente: o filme é sempre o mesmo filme, a impressão de imagens na tela, com as mesmas cenas, os mesmos planos, os mesmos closes. Será? Tal pensamento retira de cena um ator fundamental: o espectador.

O espectador de hoje não é o mesmo de amanhã. Isso explica por que muitos mudam de opinião quando revisam um filme. Expressão comum: “parece que vi outro filme”.

A magia do cinema, por isso, depende sempre do espectador. Não existe opinião final e absoluta sobre a arte, sobre quais filmes valem mais ou menos – ainda que seja necessário considerar gostos e opinar quando haja sustentação crítica para tal.

Nascido como inovação científica e depois elevado à sétima das artes, o cinema ainda encara o nariz torcido de especialistas de outras esferas.

Ver um filme – ou rever – é um caso único: a experiência sempre depende da bagagem do espectador, de sua relação com os acontecimentos da tela, do simples momento. As imagens da tela tocam cada um de maneira diversa, às vezes pela experiência vivida e reconhecida, às vezes difícil de explicar, inconsciente.

O grande diretor Robert Altman dizia que só se vê um filme em sua revisão. A primeira vez toca a superfície, os caminhos da trama. A segunda leva a outra compreensão, a novos detalhes, talvez a outra obra.

Ver um filme é se deixar levar pela emoção e, ao mesmo tempo, tentar desviar dos golpes fáceis. A relação entre essas ações torna tudo complicado demais: alguns filmes podem tocar e afastar o espectador com igual intensidade, como se dois filmes vivessem em um – leva-o a situações íntimas e abusa de vícios que repelem.

Essa arte carrega ambiguidade, a estranha junção de peças, de olhares (do cineasta, do espectador) e ainda vive sob a acusação de ser, em alguns casos, apenas entretenimento. Nascido como inovação científica e depois elevado à sétima das artes, o cinema ainda encara o nariz torcido de especialistas de outras esferas.

O melhor cinema não deve apenas entreter, deve questionar. Alguns filmes exercem as duas funções. Estes são cada vez mais raros e muitas vezes associados a públicos específicos e alguns cineastas – entre eles, os ditos autores.

Alguns filmes questionam com dureza, amargor, e ainda conseguem ser belos. Outra ambiguidade: na tela, a feitura ganha beleza, a maldade fascina. O garoto sentado em uma rocha, ao lado de uma ossada de baleia, tem inúmeros significados que não se limitam à tela. Seguem vivos na memória do espectador.

O filme como simples entretenimento parece tarefa fácil, faz tudo pelo espectador. 

Filmes como Leviatã proporcionam entretenimento sem ser fácil, longe de super-heróis e homens com espada e sandália. Entretenimentos que fazem pensar, cuja felicidade gerada tem outra forma, outro gosto, tristeza e revelação: são reais mesmo quando falsos, com ideias que fazem o impossível possível.

O Colosso - Goya

O filme como simples entretenimento parece tarefa fácil, faz tudo pelo espectador. Outro cinema pede passagem, interessa mais. Incômodo, não se preocupa em fazer todo o “serviço”, e se traduz pela arte: questiona, comove, revolta, às vezes escandaliza.

A imagem de Leviatã – a do garoto e a ossada, apenas para ficar em um exemplo – deve ser colocada ao lado de obras como O Colosso, de Goya. Sempre deixam ver mais a cada revisão – mais que um monstro vivo ou morto.

 

Rafael Amaral