Para não demorar

Para não demorar

Tenho pensado sobre a espera. Venho carregando essa vontade de escrever sobre, devido uma conversa à meia luz com minha amada que naquele dia, iniciou o papo com um “me espera, amor, que tô acabando”. Venho me acostumando a aceitar suas demoras, mas aquele dia essa espera me intrigou um pouco mais. Estranho, porque o dia não estava tão triste assim e eu também não tomei meu chá de capim santo pra atrasar certos males e me deixar pensativa. A espera me fazendo pensar sobre ela mesma com toda atenção cabível em cinco minutos. Quanta vaidade essa sua metalinguagem, querida. E eu adoro quando você vem assim, cheia de dramas me pedindo pra pensar em como é horrível encarar a vida sem ansiedades. Ainda não tive outra escolha.

Não sugar tanto o futuro que nem sei se chega ou se é no mínimo, um desrespeito com o tempo que me cabe agora.

Hoje faremos diferente. Você não me diz o que pensar e eu não te digo que por não ter percebido sua pressa de ficar, foi por sua causa que adquiri essa gastrite. Uma vida moldada a quase nenhuma opção depois de me esgotar toda imaginando que seria mais fácil não ser assim. Não esperar tanto por qualquer coisa. Não sugar tanto o futuro que nem sei se chega ou se é no mínimo, um desrespeito com o tempo que me cabe agora. E não é do troco de moedas, perguntas retóricas, respostas claras, leituras de tarô, correspondências mofadas que nunca chegarão ou olhares que talvez se cruzem amanhã. São de outras esperas. Aquelas que aparentemente não se mostram ameaçadoras, mas que um pouco mais de atenção você perceberá que não são tão boazinhas assim.

O relógio te mostra quanto tempo falta para você sonhar um pouco mais com aquilo. É injusto sabe, simplificar toda sua existência em coisas que talvez aconteçam, mas que quando chegam, você não se doa ou não percebe o quanto isso vale. É injusto porque a gente quer sonhar sem medo de ser feliz, mas quando o primeiro batente chega, somos os primeiros a desistir só porque essa espera é longa demais – e também porque as coisas têm que ser milimetricamente iguais à nossa vontade blindada.

É verdade, a vida toda é uma espera...

É verdade, a vida toda é uma espera. E nem é minha pretensão pôr um fim nisso, porque eu tenho muitas manias de tempo, preciso conhecer Amira, minha amiga muçulmana, menina, que reza cinco vezes ao dia e ainda sonha em sair de casa sem seu hijab pra sentir o vento em seu cabelo. E também porque tenho saudades da minha avó e preciso abraçá-la quando chegar minha hora. E mais outra coisa, não posso sair daqui porque estou esperando o leite ferver. Imagina o estrago se deixo de esperar.

As coisas não fariam mais sentido. Tudo seria apático, seco demais. Ninguém conseguiria. Ao pé da letra a contradição é fascínio. É lá que a gente se sente seguro, mesmo quando ninguém nos assegura disso. Não é fácil querer uma coisa e não saber contar isso, tropeçar feito uma criança que ainda confunde os pés, igual eu agora, querendo não somar tantos depois a um tempo exausto de esperar, mas também sem saber como não ceder a isso.

Se é tão difícil não viver em função de esperas, afinal, isso nos garante um pouco de sentido, que pelo menos, não a façamos de desculpas para todos os descuidos propositais ou o medo de fazermos agora um dia de coragem. Não deveríamos esperar tanto assim. Temos que aprender a tomar sua dose, e ter cuidado para que ela não seja o primeiro item de nossas listas imaginárias. Ter medo assim machuca muito, além de que minhas ansiedades não aguentam mais o peso de serem apenas isso: agonias de um daquiapouco e só. Tenta, vai. Talvez essa gastrite resolva ir embora à medida que comece a curá-la agora com um pouco mais de você. Hoje. Sem demora. Sem espera.

Iwska Isadora